Acordeões do Mundo



Mensagem do Diretor

 

"Não o amor não tem asas
se tem asas são as mãos
que se enlaçam para a festa
maravilhosa do corpo
e entre elas o coração
coração acordeão." 
Alexandre O’Neil

Vai começar a 17ª Edição do Festival de Acordeões do Mundo. Aos poucos temos vindo a fazer uma história da música popular e contemporânea ligada a este instrumento tão singular. É de facto o nosso coração que toca — e é tocado — quando as sonoridades que chegam de tempos passados nos transportam com a força de mãos que são asas para uma festa interior — a festa maravilhosa da música e dos corpos. Uma dança uníssona, uma dança invisível de crianças entrelaçadas que nos faz vibrar os pés e bater palmas. 2020 é um ano para recordar e agir de forma singular. O mundo que conhecíamos desapareceu e o que virá ainda ninguém vislumbra o que será. É por isso um tempo de desafios a todas as coisas passadas. É um tempo para provocar e combater as coisas que nos prendem e principalmente este receio global que estamos a deixar avolumar-se e que mata toda a criatividade. Li a propósito, para além do poema de Alexandre O’Neil que me serve de mote, uma crónica de António Lobo Antunes que recomendo vivamente para estes dias. Ali discorre o escritor acerca da mediocridade que nos invade e da criatividade que vamos soterrando e matando. Pergunta provocativamente aos homens maduros: quem leu Camões por exemplo? Quase ninguém. Quem sabe alguma coisa sobre Afonso de Albuquerque? Acredito que este fundamentalismo de todos termos que ler Camões não nos deve retirar outros prazeres mais pueris. Percorre, no entanto, essa crónica sobre a égide de uma pergunta de Alexandre Dumas que soa essencial retomar aqui e que se prende com os exercícios da leitura e escuta que nos ajudam a ultrapassar esta época de pânicos e amedrontamentos. E, quem sabe, auxiliar a alterar o rumo das pequenas coisas da vida.

A pergunta que Alexandre Dumas faz no seu Diário é:

“Porque motivo há tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos?”

Confesso que também sinto fazer parte dos tantos adultos estúpidos. Isto apesar de ter procurado desde sempre manter viva e ativa a criança em mim. É um dado adquirido que gosto de futebol e de outras coisas superficiais. Mas não troco uma ida a um espetáculo, uma boa conversa entre amigos e um bom vinho por comentadores desportivos e ou políticos televisivos. Ler é e tem sido uma continua aprendizagem e como diz Raul Brandão: (...) Não aprendo até morrer — desaprendo até morrer. Não sei nada, não sei nada, e saio deste mundo com a convicção de que não é a razão nem a verdade que nos guiam: só a paixão e a quimera nos levam a resoluções definitivas.   

Regressando ao Festival de Acordeões do Mundo 2020 e às razões deste editorial exorto-vos a que ganhem a oportunidade de escutar em conjunto e ao vivo os músicos que este ano nos visitam. Deixem-se guiar pelas paixões e pelas quimeras. Vamos desprender em cada concerto o que é ser adulto e cultivar o exercício da criança inteligente em cada um. Venham. Batam palmas. Alegrem-se e em conjunto vivam e recriem aquilo que em nós é humanidade. Sejamos humanos pois: crianças e adultos em simultâneo.

João Garcia Miguel
Torres Vedras, 31 outubro 2020